domingo, 6 de dezembro de 2015

PCdoB CONCLAMA A TODOS A BARRAR O GOLPE.

6 de dezembro de 2015 - 15h42 


Resolução política do PCdoB conclama todos a barrar o golpe

Intitulado "Derrotar o golpe, preservar a democracia e retomar o crescimento", a resolução política do PCdoB foi aprovada na reunião do Comitê Central que ocorreu entre sexta (4) e domingo (6), na capital paulista. Para os comunistas,  diante da grave ameaça à democracia, as forças progressistas e populares devem se unir em torno de uma campanha de enfrentamento para derrotar o golpe e preservar a democracia.


Resolução política do PCdoB conclama todos a barrar o golpe
Segue abaixo a íntegra da resolução política do Comitê Central:


Derrotar o golpe, preservar a democracia e retomar o crescimento

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, para tentar escapar da cassação de seu mandato pelos crimes de que é acusado, oficializou a admissibilidade de um processo de impeachment contra a presidenta da República.


O pedido de impeachment, escrito a mando do PSDB e deferido por Cunha, é destituído de base legal, uma vez que a presidenta Dilma Rousseff não cometeu nenhum crime de responsabilidade. É uma afronta à Constituição, conforme sustentam renomados juristas.

A oposição neoliberal, com o PSDB de Aécio Neves à frente, se juntou a Cunha, por meio de evidente barganha, dando total apoio ao chantagista e se põe agora a arregimentar forças em prol do impeachment. Setores da grande mídia, cúmplices desse atentado ao Estado Democrático de Direito, faz intensa e enganosa campanha para tentar convencer a opinião pública de que tudo ocorre sob o resguardo da legalidade. Mas a verdade é uma só: um golpe está em marcha no Brasil e a democracia corre sério risco.

Diante de tão grave ameaça, cumpre às forças democráticas e populares desencadearem, em caráter de emergência, uma campanha para enfrentar e derrotar o golpe, e preservar a democracia conquistada à custa de muitas lutas e vidas.

Cabe à presidenta Dilma Rousseff, com a autoridade dos 54 milhões dos votos que a elegeram, liderar uma ampla unidade suprapartidária, uma vigorosa mobilização do povo para que o país recupere a estabilidade institucional, a normalidade política – condições indispensáveis à retomada do crescimento econômico.

1) O alvo é o Brasil, o povo e a democracia
Na trajetória da República, os golpes da direita foram sempre contra o Brasil, o povo e a democracia. O mesmo se passa agora. A direita pretende derrubar a presidenta Dilma Rousseff para liquidar as conquistas de um ciclo político que repôs o país nos trilhos do desenvolvimento, reforçou a soberania nacional, ampliou a democracia, retirou 40 milhões de brasileiros da pobreza extrema, reduziu as desigualdades sociais e regionais, fortaleceu a integração latinoamericana.

Que ninguém se engane: Aécio Neves, Cunha e os demais golpistas pretendem impor ao Brasil um programa ultraliberal, frontalmente contrário aos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras e aos interesses da Nação.

A força do campo reacionário – para além de agregar a direita neoliberal, a grande mídia, parcelas das classes dominantes – se explica porque ele passou a contar, crescentemente, com o engajamento de setores do aparato jurídico-policial do Estado brasileiro.


2) A Nação se polariza entre dois campos
A Nação rapidamente se polariza em dois campos opostos. Não há meio termo. Ou se está do lado do Estado Democrático de Direito, ou se está do lado dos golpistas que pretendem retirar o Brasil do rol das democracias contemporâneas respeitadas no mundo.

Contra o golpe, contra o impeachment, se amplia a cada hora a tomada de posição de importantes entidades, partidos e lideranças, entre os quais a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB); o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs no Brasil (CONIC); representativo elenco de juristas; personalidades da cultura e da intelectualidade; os governadores do Nordeste, em contundente manifesto; governadores do estado do Rio de Janeiro, Acre, Minas Gerais; centrais sindicais e representativas entidades dos movimentos sociais 
e setores da oposição.

Os partidos da base do governo, pelo compromisso programático assumido com a democracia, são chamados a dar decisiva contribuição à vitória dessa jornada.

3) Preservar a democracia para o Brasil vencer a crise e retomar o crescimentoNada mais falso do que o enredo da direita e da grande mídia de que é preciso depor o governo
Dilma para que o país consiga sair da recessão.

O processo de impeachment, caso seja de fato instaurado, poderá levar o país à divisão e ao confronto no âmbito do Congresso e nas ruas. Um governo que surgisse de um golpe não teria condição alguma para resolver os graves problemas do país. Teria de enfrentar cerrada resistência das forças democráticas e populares, e conduziria o Brasil à perigosa instabilidade institucional, que aprofundaria a retração da economia, já prolongada e grave.

É a presidenta Dilma Rousseff, por ter um mandato legítimo, que pode liderar ampla mobilização para o Brasil criar as condições para superar a crise econômica e paulatinamente deflagrar uma segunda fase de crescimento e desenvolvimento, com valorização do trabalho e redução das desigualdades sociais.

Mais do que nunca a presidenta Dilma é chamada a promover a união de amplos setores da Nação, apoiada pelo povo, para o país vencer a crise. A presidenta precisa pactuar uma nova agenda de convergência entre empresários, trabalhadores e investidores por uma nova arrancada de crescimento. Nesse sentido, deve-se valorizar o manifesto Compromisso pelo desenvolvimento, lançado em ato público, no último dia 3, e assinado por centrais sindicais e várias entidades do empresariado.

É hora de mobilização e luta
Diante de um confronto decisivo ao presente e ao futuro do Brasil, o PCdoB expressa a convicção de que só há um caminho a seguir, só há uma atitude a tomar: lutar, mobilizar amplos setores da Nação, pressionando a Câmara dos Deputados para rejeitar esse processo fraudulento de impeachment.

Para isto, o PCdoB conclama a união de todos os democratas, de todos aqueles que, para além de suas opções partidárias, ou mesmo da avaliação que tenham do governo Dilma, coloquem a defesa da democracia como questão fundamental do país.

Ao mesmo tempo, é hora da mobilização das forças progressistas, dos partidos de esquerda, das centrais sindicais, dos movimentos sociais. Vamos à batalha das ruas impedir o retrocesso, garantir e ampliar as conquistas desse período. A Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem
Medo, entre outras articulações, poderão ter papel importante para barrar o golpe.

É hora de travar a batalha política de ideias, nas ruas, nas tribunas, nas redes sociais e desmascarar a trama do impeachment, denunciar o golpe, enfim, fazer chegar ao povo a interpretação correta da luta que se trava.

A batalha será dura, difícil. Mas o PCdoB está convicto de que com união e luta de todas as forças democráticas, com a garra do povo e dos trabalhadores e trabalhadoras, a democracia vencerá e o golpismo será rechaçado!

São Paulo, 6 de dezembro de 2015

O Comitê Central do Partido Comunista do Brasil – PCdoB





domingo, 8 de novembro de 2015

Manifesto Nacional dos Blogueiros, Comunicadores e Internautas “Eu Tarso pela Democracia”


MANIFESTO DOS COMUNICADORES E INTERNAUTAS

 Constituição Federal de 1988 assegura a liberdade de expressão e a proibição de confisco por parte do Estado. Mesmo assim, o Poder Judiciário eleitoral aplicou duas multas no valor total de R$ 106.410,00 ao advogado, professor universitário e blogueiro, Tarso Cabral Violin, pela publicação no seu Blog do Tarso de duas simples enquetes durante as eleições para prefeito de Curitiba em 2012. Já em Dívida Ativa da União e em processo judicial de execução, Tarso terá que pagar aproximadamente o valor atualizado com juros e multas de R$ 200 mil nos próximos dias. Mais informações no site “Eu Tarso pela Democracia”.
Independentemente das posições jurídicas, políticas e ideológicas de Tarso, entendemos que essas multas são totalmente desarrazoadas para uma pessoa física que não se utiliza de seu blog para fins financeiros, mas apenas como um espaço de cidadania e discussão sobre a Política, o Direito e a Administração Pública, para exercer o controle popular do Estado e lutar pela liberdade de expressão e democratização dos meios de comunicação.
Leia também:- 
Em uma semana de campanha, o crowdfundig “Eu Tarso pela Democracia“, para pagamento da multa absurda de R$ 200 mil da Justiça Eleitoral do Paraná contra o advogado e professor Tarso Cabral Violin, autor do Blog do Tarso, já atingiu 10% da meta.
Arrecadamos R$ 20 mil reais via Paypal e depósitos em conta, com a arrecadação mais volumosa de juristas, além da essencial contribuição de R$ 20,00, R$ 100,00, R$ 300,00, de cidadãos simpatizantes da causa da Democracia, da liberdade de expressão e contrários ao confisco do Estado, de todos os cantos do Brasil, que muitas vezes nem conhecem o Tarso.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

CARTA DE CURITIBA - Frente Nacional, Democrática e Popular



Curitiba, 28 de Agosto de 2015.
PARANÁ EM DEFESA DO BRASIL, DA DEMOCRACIA, DA SOBERANIA NACIONAL E DOS DIREITOS DO POVO!

Frente Nacional, Democrática e Popular
Estamos convictos de que, diante da gravidade da situação econômica, política e social, evidencia-se a necessidade de um novo projeto nacional de desenvolvimento para o Brasil, da unificação das forças democráticas e populares, da organização da sociedade para buscar consensos e propostas que abram caminho para um novo salto civilizatório da sociedade brasileira. Uma escalada conservadora, de caráter neoliberal está em curso e ameaça as conquistas democráticas, a soberania nacional e os direitos do povo. O momento exige a constituição de um vigoroso movimento em defesa da democracia, dos interesses do povo e da nação. Urge a unidade das forças democráticas e progressistas, da intelectualidade, dos movimentos sociais da cidade e do campo, dos estudantes, do movimento sindical, do empresariado comprometido com a causa do progresso e democracia, das lideranças políticas e partidos que têm compromisso com o país e seu povo. Propomos a constituição de uma Ampla Frente, Nacional, Democrática e Popular em defesa da Democracia, do desenvolvimento do país, da sua soberania, das reformas estruturais e da ampliação dos direitos políticos, econômicos e sociais da sociedade brasileira. Uma Frente organizada nacionalmente, nos estados e nos municípios, de caráter progressista, suprapartidária.
Os componentes da Frente Popular e Democrática do Paraná, erguemos novamente, com bravura, o grito da liberdade e da defesa da democracia. Não podemos abrir a guarda para os que vislumbram, diante das dificuldades do país, da crise internacional e dos interesses imperialistas, intentos golpistas que visam estancar as conquistas democráticas da sociedade brasileira e destruir a soberania de nossa pátria.
Entendemos que o combate à corrupção é uma obra permanente que deve envolver o conjunto da sociedade, é dever dos governos, porque ela é uma chaga que destrói os princípios éticos e morais da sociedade. É imperativo estabelecer novos parâmetros para coibir esta relação promíscua que existe entre os setor privado e o Estado. Entre os corruptos e corruptores. Mas este combate, não pode ser seletivo, deve atingir a todos os que praticam atos ilícitos, doa a quem doer. Por isso  também que defendemos que se acabe com o financiamento privado das campanhas eleitorais. Razão maior para a existência de um congresso nacional retrogrado e reacionário, que ao invés de extirpar as causas da corrupção, aprova uma reforma política que vai na contramão dos interesses da sociedade brasileira. Um congresso que irrompe ferozmente contra os direitos do povo, pretende instituir a precarização do trabalho, através da terceirização em toda a linha consagrando a escravidão assalariada. Um Congresso que fomenta alterar e reverter a Lei da Partilha do Pré-Sal, manobra que esconde o interesse maior e entreguista de privatizar a nossa  maior e estratégica empresa, a Petrobrás.
Nós não temos dúvida de que a crise econômica e política que assola o país, é caldo de cultura para uma oposição conservadora e elitista, que destila o ódio e o preconceito, e que fomenta com o apoio explícito dos monopólios da comunicação, não só os intentos golpistas mas também o retrocesso, o fim das conquistas democráticas e populares, o impedimento à realização das reformas estruturais para que o país possa avançar no rumo do desenvolvimento, ampliar os direitos da classe trabalhadora, realizar a reforma agrária e fortalecer a economia familiar, defender o patrimônio nacional, investir na educação do povo, estruturar políticas públicas de saúde, de moradia, de transporte, que possibilitem o melhoramento da qualidade de vida do povo e o sepultamento das enormes desigualdades que ainda persistem na sociedade brasileira.
Esta Frente, deverá aprofundar o debate sobre os rumos do país, pensar e estabelecer uma agenda que possibilite a união e a mobilização do povo brasileiro em torno de um programa mínimo que tenha como base, a defesa da democracia, da sua consolidação, da participação popular cada vez mais ampla nas decisões do país; a defesa de uma reforma política que possibilite legitimar e moralizar o processo eleitoral, impedindo o abuso do poder econômico nas eleições, possibilitando a igualdade de condições, através do financiamento público das campanhas. E isto implica também, na democratização dos meios de comunicação, assegurando a liberdade e a igualdade de expressão, impedindo a imposição dos monopólios empresariais; a defesa da soberania do país, das riquezas naturais e do potencial ambiental estratégicos para o novo projeto nacional de desenvolvimento que possibilite a superação das desigualdades sociais e econômicas do povo; por fim a todas as formas de discriminações, preconceitos e desigualdades; defender a universalização do ensino público de qualidade; defender uma política externa independente, de integração cada vez maior da América Latina, que não esteja subordinada aos interesses hegemônicos de quem quer que seja.
Entretanto, nós não vamos levar a cabo estas tarefas inadiáveis para superar os entraves que dificultam o desenvolvimento econômico e social do país, se o povo não tiver unido e organizado. Se não houver ampla mobilização popular para sustentar estas bandeiras de luta.
O Estado do Paraná, pela sua importância econômica e política, deve ter maior protagonismo no cenário nacional. Para isso devemos superar a incompetência administrativa e política, enfrentar esta dura realidade que oculta a elevação da dívida pública, a precarização do trabalho do  funcionalismo público, e deterioração dos serviços públicos, a fragilização de nossa indústria e da produção campesina, da nossa economia, das finanças e das empresas públicas fundamentais para sustentar nosso desenvolvimento. É preciso também quebrar esta seletividade na apuração dos desmandos e da corrupção que também assola o nosso Estado, sistematicamente blindadas pelo aparato ultraconservador do Ministério Público, do Tribunal de Contas, da mídia monopolista e demais órgãos de controle da sociedade.
Não podemos abdicar de nossa responsabilidade nestes momentos cruciais da vida nacional, com base na história de luta do bravo povo brasileiro, deveremos afirmar a nossa cidadania, o nosso compromisso, construindo a união nacional necessária para transformar o Brasil na grande nação que todos almejamos e colocar os alicerces para construir uma sociedade muito mais humana, solidária e fraterna.
É com estas premissas que nasce a Frente Democrática e Popular do Paraná!
Viva a unidade das forças democráticas e populares! Viva a união do Povo!

LEIA TAMBÉM:

·         Partidos e movimentos sociais lançam, em Curitiba, a Frente Nacional Popular e Democrática
Com o objetivo de propor um novo projeto para o país por meio da organização da sociedade, com bases para um novo marco civilizatório do Brasil, na sexta-feira (28) foi lançada em Curitiba, Paraná, a ideia da constituição de uma Frente Nacional Popular e Democrática, no auditório do Hotel Bourbon. Cerca de 300 pessoas de movimentos sindicais, sociais e estudantil das mais diversas categorias participaram da cerimônia, em que também foi aprovada a Carta de Curitiba, que explicita as principais diretrizes da frente.
Por Cezar Xavier– 02 de Setembro de 2015

·         Frente Brasil Popular será lançada em BH contra golpismo e por avanços
Em defesa da democracia e do mandato constitucional da presidenta Dilma Rousseff, forças progressistas realizam no próximo sábado (5), na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em Belo Horizonte, a Conferência Nacional Popular em defesa da democracia e por uma nova política econômica.
Por Eliz Brandão – 31 de agosto de 2015 - 18h25

·         Sorrentino: Frente Popular no Brasil é promessa de luta e de conquista
A Frente é necessária não apenas do ponto de vista imediato, para constituir um núcleo básico à promover ampla união de forças democráticas, patrióticas e progressistas, frente à escalada golpista das forças reacionárias em nosso país, mas também, para prosseguir adiante da jornada de construção de um projeto nacional de desenvolvimento, a partir das conquistas alcançadas neste ciclo de governos e se fortalecer para fazer frente à atual encruzilhada em que se encontra.
Por Walter Sorrentino – 2 de setembro de 2015 - 11h12


·         Unidade: 15 partidos apresentam propostas para a Agenda Brasil

Como forma de contribuir para a retomada do desenvolvimento econômico e social e superar a crise financeira e política do país, amplas forças políticas, lideradas por 15 partidos da base do governo na Câmara dos Deputados desenvolveram um documento nos moldes do projeto Agenda Brasil, do Senado. Formada por matérias em tramitação na Casa e outras a serem construídas, a Agenda da Câmara será apresentada ao governo federal e aos presidentes das Casas legislativas.
Por Eliz Brandão – 26 de Agosto de 2015 - 20h12

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Documentário produzido nos anos 80 - A CLASSE ROCEIRA

A Classe Roceira


Documentário produzido nos anos 80 por Berenice Mendes retrata a luta pela terra no Paraná e a formação do MST neste estado como resposta à inoperância do 1º Plano Nacional de Reforma Agrária. Guarda o registro das músicas cantadas pelos acampados para motivar a luta de todos.
A CLASSE ROCEIRA
(1985, 29 min)
Direção: Berenice Mendes
Documentário registra o surgimento do MST no Paraná, em meio à migração de gaúchos para o Mato Grosso.






Sinopse
"Nos acampamentos, à margem das rodovias, a opção pela permanência no campo. A árdua sobrevivência e os hábitos culturais. O chimarrão e as músicas sertanejas como fator de integração e resistência. A organização política: comissões, passeatas, assembleias e bloqueios. A posição dos latifúndios. O confronto: a luta pela reforma agrária.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A situação da classe trabalhadora na Inglaterra

Parte do capítulo de Friedrich Engels escrito em 1845, 

A situação da classe trabalhadora na Inglaterra


ENGELS, Friedrich, 1820-1895




Desconheço uma classe tão profundamente imoral, tão incuravelmente corrupta, tão incapaz de avançar para além do seu medular egoísmo como a burguesia inglesa - e penso aqui na burguesia propriamente dita, em particular a liberal, empenhada na revogação das leis sobre os cereais.
Para ela, o mundo (inclusive ela mesma) só existe em função do dinheiro; sua vida se reduz a conseguir dinheiro; a única felicidade de que desfruta é ganhar dinheiro rapidamente e o único sofrimento que pode experimentar é perdê-lo1. Essa avidez, essa sede de dinheiro impede a existência de quaisquer manifestações do espírito humano que não estejam maculadas por ela. É certo que os burgueses da Inglaterra são bons maridos e pais de família, possuem aquilo a que se chamam virtudes privadas e, nas relações cotidianas, parecem tão respeitáveis e honestos quanto todos os outros burgueses - aliás, até mesmo nos negócios, é melhor tratar com eles que com os burgueses alemães, já que não são cavilosos e matreiros como os nossos comerciantes. Mas tudo isso está subordinado, em última instância, ao que sempre é decisivo: seu interesse privado e, especificamente, sua obsessão de ganhar dinheiro. Certa feita, percorri Manchester em companhia de um desses burgueses e falei-lhe da má arquitetura, da insalubridade, das condições horríveis dos bairros operários e disse-lhe que jamais vira uma cidade construída em piores condições. Ele me escutou com tranquilidade e, na esquina em que nos separamos, declarou, antes de nos despedirmos: "And yet, there is a great áeal ofmoney made here" [E, apesar disso, aqui se ganha um bom dinheiro]. Ao burguês da Inglaterra não lhe causa mossa que seus operários morram ou não de fome, desde que ganhe dinheiro. Todas as relações humanas são subordinadas ao imperativo do lucro e aquilo que não propicia ganhos é visto como algo insensato, inoportuno e irrealista. É por isso que a Economia Política, ciência que se ocupa dos meios de ganhar dinheiro, é a disciplina favorita desses traficantes - são todos economistas.
A relação entre o industrial e o operário não é uma relação humana: é uma relação puramente económica - o industrial é o "capital", o operário é o "trabalho". E quando o operário se recusa a enquadrar-se nessa abstração, quando afirma que não é apenas "trabalho", mas um homem que, entre outras faculdades, dispõe da capacidade de trabalhar, quando se convence que não deve ser comprado e vendido enquanto "trabalho" como qualquer outra mercadoria no mercado, então o burguês se assombra. Ele não pode conceber uma relação com o operário que não seja a da compra-venda; não vê no operário um homem, vê mãos (hands), qualificação que lhe atribui sistematicamente.

O burguês, para retomar a expressão de Carlyle, só reconhece um vínculo entre os homens: o pagamento à vista. Até mesmo a relação entre ele e sua mulher é, em 99% dos casos, a do pagamento à vista. A miserável escravidão que o dinheiro exerce sobre o burguês mostra a marca do domínio da burguesia, inclusive na linguagem: como o dinheiro passa a constituir o valor do homem, esse homem vale dez mil libras (he is worth ten thousand pounds), isto é, ele possui dez mil libras; quem tem dinheiro é respeitável (respectable), pertence à melhor categoria de pessoas (the better sort of a people), é influente (inflnential) e seus atos são apreciados em seu meio. O espírito mercantil penetra toda a linguagem, todas as relações vêm designadas por expressões comerciais e explicadas mediante categorias econômicas. Encomenda e fornecimento, demanda e oferta são fórmulas com base nas quais a lógica do inglês ajuíza toda a vida humana. Eis o que permite compreender o respeito universal pela livre concorrência e o regime do laissez-faire e laissez-aller" na administração, na medicina, na educação e em breve, muito provavelmente, também na religião, onde a supremacia da Igreja estatal perde terreno progressivamente. À livre concorrência repugnam quaisquer limites, quaisquer controles estatais; o Estado aparece-lhe como um estorvo: seu ideal seria operar numa ordem social privada de Estado, na qual cada um pudesse explorar livremente o próximo, como, por exemplo, na "Associação" do nosso amigo Stirnerb. Mas como não pode dispensar o Estado, já que não teria como conter o proletariado sem ele, a burguesia utiliza-o contra a classe operária, ao mesmo tempo em que procura, na medida do possível, afastá-lo de seus próprios negócios.


Fonte: ENGELS, Friedrich, 1820-1895. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra;  tradução B. A. Schumann; edição José Paulo Netto. - São Paulo: Boitempo, 2008, pg 307; 308 e 309.



E Friedrich Engels conclui:

Mas, reitero, estou convencido de que a guerra dos pobres contra os ricos, que hoje vem se desenrolando na Inglaterra de modo esporádico e indireto, evoluirá para um confronto geral, total e direto. Já é tarde para uma solução pacífica. As classes vão se opondo cada vez mais nitidamente, o espírito de resistência cresce dia a dia entre os operários, a cólera torna-se mais intensa, as escaramuças isoladas da guerrilha confluem para combates e manifestações mais importantes e em breve um pequeno incidente bastará para desencadear a avalanche. Então, certamente ecoará por todo o país o grito: Guerra aos palácios, paz nos campos! - e já será tarde para que os ricos possam se pôr em guarda. (ENGELS, Friedrich, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra p. 328).

domingo, 9 de agosto de 2015

FILME "CORUMBIARA - O MASSACRE DOS CAMPONESES"

9  DE AGOSTO DE 2015 – MASSACRE DE CORUMBIARA – 20 ANOS




O filme "Corumbiara - O Massacre dos Camponeses" retrata fielmente os acontecimentos na Fazenda Santa Elina. A PM de Rondônia armou um verdadeiro "teatro de operações" para fazer a guerra contra os sem terra que lutavam por um pedaço de terra para viver, criar e plantar. Aliou-se ao latifúndio para fazer cumprir uma "Ordem de Reintegração de Posse" a favor dos fazendeiros. E escolheu a noite para executar seu plano desumano, que não poupou sequer as mulheres, os velhos e as crianças!




Leia também:


MESQUITA, H. A. Corumbiara: o Massacre dos Camponeses. Rondônia, 1995. 2001. Tese (Doutorado em Geografia Humana) FFCLH/USP. São Paulo. Acesso em:  http://revista.fct.unesp.br/index.php/pegada/article/viewfile/887/905

Pesquisa aponta 23 mortes por conflito agrário até julho


No primeiro semestre deste ano, 23 pessoas morreram em conflitos no campo em todo o país. A maioria dos casos ocorreu no Pará e em Rondônia. Os dados são da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Segundo Rubem Siqueira, da Coordenação Nacional da CPT, os assassinatos foram motivados por disputa de terra.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

09 DE AGOSTO 20 ANOS DO MASSACRE DE CORUMBIARA




Parte do texto extraído da Tese de Doutorado de Helena Angélica de Mesquita intitulado de: Corumbiara: o Massacre dos Camponeses. Rondônia, 1995. 2001. Tese (Doutorado em Geografia Humana) FFCLH/USP. São Paulo.

 

O Conflito da Fazenda Santa Elina

 

No dia 14 de julho de 1995, centenas de famílias de trabalhadores rurais sem terra ocuparam uma pequena parte dos 20.000 hectares da Fazenda Santa Elina, no município de Corumbiara. Ao amanhecer do dia 15 de julho o acampamento era uma realidade. Nascia rapidamente um espaço de esperança. Como era uma área de mata, os camponeses construíram os barracos sob as árvores mais altas para proteger a pequena cidade de lona dos constantes voos de intimidação praticados por fazendeiros e policiais. O acampamento ficava separado do Assentamento Adriana por um riacho de águas límpidas. Neste assentamento os camponeses encontraram apoio e solidariedade, e lá pretendiam se refugiar em caso de cerco ao acampamento. Cuidados vãos, pois não tiveram a mínima chance; o cerco aconteceu de madrugada, quando todos estavam desmobilizados. A ocupação da Fazenda Santa Elina foi mais um dos 440 conflitos por terra que ocorreram no Brasil em 1995 e um dos 15 que aconteceram só em Rondônia naquele ano (dados da Comissão Pastoral da Terra).

No processo de reintegração de posse e no “despejo” dos posseiros, no dia 9 de agosto de 1995, os posseiros foram sistematicamente torturados. Sabe-se que o crime de tortura é inafiançável e imprescritível, no entanto tal crime não foi tema considerado no processo, assim como não o foi também no júri. Os policiais só foram a júri responsabilizados por três mortes, pois o juiz de Colorado do Oeste, na sentença de pronúncia, achou que não poderia imputar a ninguém a responsabilidade pelas mortes que ocorreram em “fogo cruzado”. Entretanto, este mesmo juiz mandou a júri os dois sem terra acusados da morte dos dois policiais que também morreram no fogo cruzado. Para fazer cumprir a liminar de manutenção de posse, a polícia teve o financiamento dos fazendeiros Antenor Duarte do Vale e Hélio Pereira de Morais, o último, proprietário da fazenda Santa Elina. Eles forneceram homens, veículos, alimentação, transporte de tropas e armas. Foi uma empreitada privada, feita de forma intempestiva, inconsequente e criminosa e que, no final, quem acabou sofrendo as piores consequências foram os próprios camponeses sendo, inclusive, condenados pelo júri.

 

A sociedade brasileira não encontrará a paz enquanto a violência continuar impune. Mas os camponeses não se calarão enquanto as elites continuarem intransigentes com relação à terra. Por isso mesmo, nem um ano depois, outra Corumbiara aconteceu no governo social democrata (na verdade neoliberal) de FHC: Eldorado dos Carajás.

 

Fonte: MESQUITA, H. A. Corumbiara: o Massacre dos Camponeses. Rondônia, 1995. 2001. Tese (Doutorado em Geografia Humana) FFCLH/USP. São Paulo. Acesso em: http://revista.fct.unesp.br/index.php/pegada/article/viewfile/887/905

  

Para saber mais sobre o caso leia:
















 


quinta-feira, 2 de julho de 2015

EM BOCA FECHADA NÃO ENTRA BALA


Silêncio, chá de sumiço, amnésia seletiva e ameaças veladas no caminho de ‘Corumbiara, caso enterrado’, livro sobre um dos piores conflitos agrários pós-ditadura


por João Peres | 29 de junho de 2015



Massacre de Comrumbiara (RO), em 1995. Despejo violento deixa 9 sem-terra mortos.




Queimadas à beira da BR 364 em agosto de 2013, durante a apuração do livro-reportagem



Todos lançam olhares inquisidores sobre o carro. As cabeças descrevem o movimento exato do automóvel ao passar pelas ruas, ansiosas por saber quem são os
forasteiros. Um repórter barbudo, um fotógrafo argentino, um padre irlandês de rosto vermelho e um missionário inglês enorme formariam um grupo exótico em quase todos os lugares do mundo. Em Vista Alegre do Abunã, um distrito minúsculo de Porto Velho, em Rondônia, são uma aberração.
A tensão que acompanha jornalistas em apurações sobre questões agrárias na Amazônia é grande. No geral, vai-se a locais com baixa presença institucional do Estado e com uma cultura de violência e ajustiçamento. O Brasil é um dos países com piores índices de assassinato de profissionais de imprensa, segundo ranking elaborado anualmente pela organização Repórteres Sem Fronteiras. Ter escolhido um caso ocorrido numa frente nova de desmatamento para começar a apuração que resultaria no livro Corumbiara, caso enterrado (Editora Elefante, 2015) não foi uma decisão prudente.
 
 
Na realidade, qualquer um que chegasse de fora chamaria atenção. Qualquer um que viesse querendo saber desse assunto. Faz quase dois anos que tudo ocorreu. A cerca por onde escorreu o sangue de Adelino Ramos é a única testemunha dos fatos. Ninguém quer abrir a boca. Ao longo do dia, jogam-nos de um lado para o outro, sem fornecer informações sobre quem pode ter encomendado a morte de Dinho. Líder do Projeto de Assentamento Florestal (PAF) Curuquetê, a poucos e pedregosos quilômetros daqui, no sul do Amazonas, ele foi assassinado num domingo do final de maio de 2011.
Cerca de um mês antes, havíamos conversado por telefone, num intervalo de poucos minutos em que havia sinal de celular. “A gente defendeu um projeto inovador no país, que é o assentamento florestal comunitário, e é esse em que a gente está. Então, onde há matança de gente, onde há roubo de barreiras, no estado do Amazonas… tudo que sai do Amazonas sai para Rondônia”, contou. Adelino já estava encrencado.
Agora, em fevereiro de 2013, sob o calor abrasador do noroeste rondoniense, espreitávamos sabendo que éramos espreitados. Vista Alegre é um dos muitos distritos de Porto Velho, uma das maiores capitais do país. Como vários dos povoados de Rondônia, tem um só caminho para entrar, sair ou fugir, especialmente se não se está a bordo de uma picape. Dali a dez quilômetros, em linha reta para o Norte, está o Amazonas, e dali a quinze, para o Sul, fica a divisa com a Bolívia. Entre um lado e outro, madeira nobre sendo transportada à luz do dia, em cinco mil viagens de enormes caminhões em direção ao Sudeste, segundo contabilidade apreendida em poder dos “donos” da área.
A Polícia Federal e o Ministério Público Federal investigavam havia quase três anos um esquema de loteamento ilegal de terras da União convertidas em área de desmatamento. “É terra sobre terra. Ninguém é dono. Com a instalação do assentamento Curuquetê, isso começou a criar um impasse entre o pessoal que já estava lá. Como ninguém tem título, o assentamento era um risco para eles”, contou um agente federal envolvido na investigação. “A gente percebia que aquela situação estava insustentável e poderia desaguar em alguma outra coisa. Não achava que podia desaguar em crimes contra a vida.” Só depois da morte de Adelino a Justiça Federal autorizou que se realizasse uma operação contra o corte ilegal da floresta.
Logo após o crime, a Polícia Civil anunciou a prisão de Osias Vicente, envolvido com madeireiros locais, acusado de matar Adelino. Mas, até o fim do ano, o Ministério Público Estadual não havia oferecido denúncia. Uma história sem um pingo de originalidade: o Judiciário libertou o suposto matador, que um mês depois acabou assassinado, o que levou ao arquivamento do caso sem que se chegasse aos mandantes do crime contra o líder sem-terra.
Sem colher bons resultados em Vista Alegre, fomos até Extrema, outro distrito de Porto Velho, onde Adelino foi atendido após os disparos. “No caminho para Extrema, um carro ficou fechando eles, não deixou correr. Até hoje ninguém soube me dizer que carro que era. Nem a placa”, contou mais tarde um amigo da família que também não conseguiu arrancar informação alguma sobre a morte. A ficha de atendimento é lacônica: óbito provocado por perda de sangue. No posto policial, o boletim de ocorrência sobre Adelino é o maior da unidade: uma pilha de meio metro de papel depositada entre duas cadeiras. Um dos escrivães – são dois no total, respondendo por quatro distritos – não dá esperança de que a investigação avance. São muitos casos para cuidar e a estrutura é extremamente precária.
No começo, não sabíamos se dormiríamos em Vista Alegre. Depois do clima tenso com que nos deparamos, não resta dúvida de que o mais seguro é retornar ao centro de Porto Velho, para decepção do padre irlandês Bernard Leo Dolan, amigo da família de Adelino que esperava retornar com algo mais. É, de fato, um começo de viagem ruim.
Entre 2013 e 2014, quase sempre na companhia do fotógrafo Gerardo Lazzari, percorro Rondônia para tentar entender as histórias que envolvem o chamado “massacre de Corumbiara”, ocorrido em 9 de agosto de 1995 durante uma operação de reintegração de posse na fazenda Santa Elina, no sul do estado. Segundo os números oficiais, 12 pessoas morreram – nove sem-terra, dois policiais e um rapaz não identificado, possivelmente um pistoleiro. Resumindo de maneira simplória, a acusação levou ao julgamento de dois posseiros e de 12 agentes de segurança. Do lado dos ocupantes, saíram condenados Cícero Pereira Leite Neto, seis anos e dois meses de reclusão, e Claudemir Gilberto Ramos, oito anos e meio. Entre os PMs, foram sentenciados os soldados Airton Ramos de Morais, a 18 anos, e Daniel da Silva Furtado, a 16 anos, e o então capitão Vitório Régis Mena Mendes, a 19 anos e meio.
A história de Adelino, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Corumbiara na época, é uma entre várias relacionadas ao caso. Fundador do Movimento Camponês Corumbiara (MCC), de 1995 a 2011 conseguiu assentar muitas famílias, brigou com amigos e inimigos, zanzou Rondônia de sul a norte, escapou da acusação pelas mortes ocorridas na Santa Elina. Em Lábrea, no Amazonas, esperava tocar mais um assentamento. Num lugar improvável. “Não tem condição nenhuma de manter qualquer atividade produtiva. Não tem terra, não tem água, não tem luz. Tem todo tipo de problema de malária, febre amarela, bicho peçonhento”, contou um agente federal.
Nos dias seguintes àquela busca pouco frutífera por informações em Vista Alegre, os gringos ficaram em Porto Velho, enquanto Gerardo e eu fomos a Theobroma, no centro do estado, onde acabaram assentadas entre 1995 e 1996 algumas das famílias do episódio da Santa Elina. O começo da conversa era quase sempre igual: recebiam-nos com desconfiança, cara amarrada, incomodados com o assunto. Parecia que daquele mato não sairia coelho. Até que a pessoa, geralmente homem, começava a se soltar – e a soltar informações. Nossa cabeça de paulista planejava fazer várias entrevistas ao dia, ignorando que na roça o tempo é outro, que é preciso esperar o caboclo escolher o momento certo de falar, criar laços de confiança.
A última parada prometia ser a mais tensa. Havia um misto de curiosidade e receio por chegar ao palco dos acontecimentos. Depois de conhecer Vista Alegre, vislumbrávamos algo parecido em Corumbiara. Não foi o que ocorreu. Ainda que muitos tenham se dado conta de nossa presença, e até mesmo dos motivos dela, os fatos de 1995 eram passado para a maior parte das pessoas.
Nas outras vezes, já sabendo andar sozinhos pela região, vimos situações mais perigosas, mas não para nós. Na época do conflito, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) não chegou a desapropriar a Santa Elina, operação que retomou 12 anos mais tarde, abrindo uma disputa pelas terras férteis e simbólicas. A Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia, ex-aliada de Adelino, e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Corumbiara acabaram obrigados a dividir o assentamento. Basicamente, adversários revolucionários e reformistas foram colocados dentro de um mesmo espaço. “O povo que não sofreu o massacre com a gente fica implicando. Tem hora que eu fico revoltado. Ficam pisando na gente. Eu pensava que a gente era tudo amigo”, contou um homem, sob ameaças de morte por desentendimentos mesquinhos.
Sempre deixávamos Rondônia com a sensação de que seria importante voltar. Os relatos dos sem-terra eram interessantes, mas repetitivos e insuficientes. Era necessário entrevistar advogados, promotores, juiz, políticos, integrantes de movimentos sociais.
Poucas passagens foram tão desgastantes quanto a conversa com o ex-secretário-executivo de Valdir Raupp, governador na época do episódio da Santa Elina. Telefonei para Édio Antônio de Carvalho no começo de 2014. Ele avisou que só conversaria pessoalmente. Liguei de novo avisando que embarcaria nos próximos dias para Porto Velho. “O Édio que você está procurando é outro”, respondeu.
Era um sábado de manhã quando peguei o carro e fui ao condomínio onde morava, nas imediações do centro de Porto Velho. Por sorte, o esquema de segurança era frouxo e o rapaz da portaria não anunciou minha chegada. Quando entrei em sua casa, fez uma cara de surpresa indescritível. “Cansou de tomar ‘não’ pelo telefone? Veio tomar ‘não’ pessoalmente?”, perguntou, muito irritado.
Com o passar dos minutos, acalmou-se e começou a narrar sua versão. Uma versão diferente da que está registrada em relatório da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Em 1995, Édio contou a deputados que não se chegou a um desfecho pacífico porque o fazendeiro Antenor Duarte do Valle, vizinho da área ocupada, rejeitou acordo para assentar as famílias. Agora, ele culpava os sem-terra, a quem acusou de intransigência no diálogo, e dizia sofrer de amnésia em relação a pontos incômodos. O ex-secretário-executivo disse ter recebido ordem para prestar todo apoio às famílias, desde que aceitassem deixar a fazenda.
No meio da prosa, criticou o governo do PT, tido como comunista, e afirmou que, no que dependesse de Lula, Evo Morales teria invadido o Brasil. Queixou-se de não conseguir mais contratar empregada devido ao Bolsa Família. Enquanto conversávamos, sua mulher perguntou em que veículo jornalístico eu trabalhava porque queria ler minhas reportagens para saber se eu era de esquerda. Deixou ameaças no ar. Decidi sair dali o quanto antes. Meti-me no centro de Porto Velho e fiquei rodando um tempo, até ter certeza de que não haveria problema.
Em outras oportunidades, momentos de alta tensão se revelaram calmos. Ou viraram frustração. Por duas vezes, tentei conversar com os policiais militares de Vilhena, divisa com o Mato Grosso, sede do batalhão em que atuava a maior parte dos envolvidos no caso da Santa Elina. Na primeira, um PM esperou que eu chegasse à cidade para dizer que havia se arrependido e não queria mais conversar. Outro viajou sem avisar e pediu que aguardasse por uma semana ou dez dias, até a volta.
Na segunda vez, depois de uma entrevista animadora, parecia que andava por bom caminho. A promessa era de que três policiais dariam uma entrevista às 7 horas.
– Oi. O pessoal não apareceu ainda?, perguntou o PM que havia garantido a conversa.
Passei o dia inteiro sentado, à espera de que viessem, sempre com promessas renovadas de que estavam a caminho. Na manhã seguinte, fui ao batalhão. Receberam-me com conversas sobre amenidades, contaram sobre o bem-sucedido esquema de patrulhamento de ruas de Vilhena e me despacharam sem contar nada sobre o que queria ouvir. Durante mais dois dias, busquei por todos os meios conversar com os policiais. Nunca tomei tanto perdido na vida. Saí de lá puto, sabendo que aquela apuração estava encerrada.
Era o fim irritante de um trajeto que começara de maneira tensa. No começo de 2011, entrevistei Claudemir Gilberto Ramos, sem-terra condenado a oito anos e meio de prisão pelas mortes de dois policiais vitimados no caso da Santa Elina. Filho de Adelino, ele se recusava a cumprir a pena, que considerava injusta. Aquela narrativa, tão cheia de lacunas, foi o que me motivou a entender melhor a história, contada no primeiro capítulo do livro, compartilhado agora com os leitores.
·         Originalmente publicado na Agência Pública. Baixe o primeiro Capítulo do livro. 
 
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